Trabalhando a percepção do próprio corpo
Crianças típicas constroem a percepção do próprio corpo a partir do movimento, do toque e da interação com o ambiente. É assim que se forma o esquema corporal, base para o desenvolvimento motor, emocional e cognitivo. Em muitas crianças com TEA, o processamento dessas informações sensoriais acontece de forma diferente, o que pode impactar a autorregulação, a organização dos movimentos e a participação nas atividades do dia a dia. Essas diferenças são amplamente trabalhadas dentro de uma abordagem de terapias integradas no tratamento do autismo, que considera o corpo como parte essencial da aprendizagem e do desenvolvimento.
Na Terapia Ocupacional no desenvolvimento da autonomia, utilizamos a Integração Sensorial para ajudar o sistema nervoso a organizar melhor os estímulos que chegam do corpo e do ambiente. Essa organização sensorial é um dos pilares do centro de excelência em tratamento do autismo, pois influencia desde a coordenação motora até a capacidade da criança de brincar, se alimentar, se comunicar e se adaptar às rotinas.
A percepção corporal depende principalmente da ação integrada de três sistemas: o tátil, o vestibular e o proprioceptivo. Esses sistemas formam a base da sala de integração sensorial no tratamento do autismo, onde experiências planejadas ajudam o cérebro a interpretar melhor o mundo.
O sistema tátil processa informações como temperatura, dor, texturas e contato físico. Quando esse sistema apresenta diferenças, a criança pode demonstrar desconforto com toques, roupas, alimentos ou superfícies. Essas respostas estão diretamente ligadas a comportamentos como o flapping no autismo e outros movimentos autorregulatórios, que muitas vezes surgem como uma tentativa do corpo de se organizar diante da sobrecarga sensorial.
Já o sistema vestibular é responsável pela percepção de movimento, equilíbrio e posição da cabeça em relação à gravidade. Alterações nesse sistema podem explicar tanto a busca intensa por balanços e giros quanto a insegurança diante de escadas, escorregadores ou mudanças de posição, frequentemente observadas em situações de meltdown e shutdown no autismo, quando o cérebro entra em estado de sobrecarga.
O sistema proprioceptivo informa ao cérebro onde o corpo está no espaço e como ele se move. Ele é essencial para ajustar força, postura e coordenação. Quando esse sistema está desorganizado, a criança pode esbarrar, cair com frequência ou ter dificuldade em tarefas que exigem coordenação fina, o que impacta diretamente a autonomia na vida de adolescentes autistas e a participação funcional nas atividades escolares, sociais e familiares.
Dentro da metodologia de cuidado da Próximo Degrau, a Terapia Ocupacional atua de forma integrada com outras especialidades para promover uma relação mais confortável e eficiente da criança com o próprio corpo. Esse trabalho não busca “corrigir” a criança, mas criar caminhos para que ela se sinta mais segura, organizada e disponível para aprender, brincar e se relacionar.
Com uma avaliação individualizada e intervenções baseadas em evidência, é possível ampliar a participação da criança em atividades de autocuidado, brincadeiras e rotinas familiares, fortalecendo sua autonomia e qualidade de vida, princípios que fazem parte da história e filosofia de cuidado da Próximo Degrau.