As funções executivas no autismo são um dos temas mais importantes quando falamos de desenvolvimento, aprendizado e autonomia. Essas habilidades cognitivas ajudam a criança, o adolescente ou o adulto a planejar, organizar, controlar impulsos, manter o foco e adaptar-se a mudanças. Em outras palavras, são como o “gerente do cérebro”, que direciona o que deve ser feito em cada situação.
No caso de pessoas autistas, as funções executivas podem apresentar desafios. Isso significa que organizar uma rotina, lidar com imprevistos ou mesmo lembrar etapas de uma atividade simples pode se tornar mais difícil. No entanto, com apoio adequado e estratégias práticas em casa, é possível estimular essas habilidades e favorecer um desenvolvimento mais equilibrado.
Neste artigo, vamos explicar em detalhes o que são funções executivas, por que são tão relevantes no autismo e como as famílias podem trabalhá-las no dia a dia, de forma acessível e afetiva.
O que são funções executivas no autismo
As funções executivas são um conjunto de processos mentais que regulam pensamentos, emoções e comportamentos para alcançar objetivos. Quando falamos de autismo, essas funções podem ter um impacto direto em tarefas cotidianas, no aprendizado escolar e até nas relações sociais.
Algumas das principais funções executivas incluem:
- Planejamento: capacidade de organizar passos para atingir um objetivo.
- Organização: estruturar informações e tarefas em ordem lógica.
- Memória de trabalho: reter informações por curto período para executar algo.
- Flexibilidade cognitiva: adaptar-se a mudanças ou a novas formas de fazer uma mesma tarefa.
- Controle inibitório: pensar antes de agir, resistindo a impulsos.
- Monitoramento: revisar se a tarefa está sendo realizada da forma correta.
Em pessoas neurotípicas, essas habilidades se desenvolvem gradualmente durante a infância e adolescência. Já em pessoas autistas, muitas vezes é necessário criar estratégias específicas de apoio, já que os desafios nessas áreas são comuns.
Por que trabalhar funções executivas em casa é essencial
O ambiente familiar é o primeiro espaço de aprendizado. Em casa, a criança ou adolescente autista pode experimentar, errar, treinar e se sentir seguro para desenvolver novas habilidades.
Trabalhar funções executivas em casa traz benefícios como:
- Maior autonomia nas rotinas diárias: como se vestir, organizar materiais ou preparar um lanche.
- Redução de frustrações: a criança aprende a lidar com imprevistos de maneira mais leve.
- Melhora do foco e da atenção: fundamental para o aprendizado escolar.
- Fortalecimento do vínculo familiar: quando pais e filhos se engajam em atividades conjuntas.
- Preparação para a vida adulta: já que planejar, organizar e controlar impulsos são habilidades necessárias em qualquer fase da vida.
Portanto, estimular as funções executivas em casa não é apenas um recurso de apoio, mas uma forma concreta de ampliar a qualidade de vida da pessoa autista.
Desafios comuns nas funções executivas de pessoas autistas
Embora cada pessoa autista seja única, alguns padrões de dificuldades relacionados às funções executivas podem ser observados. Entre eles:
- Dificuldade em iniciar tarefas: mesmo quando sabem o que deve ser feito.
- Problemas para manter a atenção: especialmente em atividades que não são de interesse intenso.
- Resistência a mudanças: alteração de rotinas pode gerar ansiedade.
- Impulsividade: agir sem pensar nas consequências.
- Esquecimento de etapas: perder o fio da tarefa no meio do processo.
Essas dificuldades podem se somar a outros comportamentos, como os episódios de meltdown e shutdown no autismo, que muitas vezes surgem diante da dificuldade em lidar com mudanças ou frustrações.
Como trabalhar funções executivas em casa: estratégias práticas
Agora que entendemos a importância das funções executivas no autismo, vamos explorar atividades e recursos práticos que podem ser usados em casa.
1. Criação de rotinas visuais
Crianças autistas tendem a se beneficiar de previsibilidade. Usar quadros de rotina com imagens ou pictogramas ajuda no planejamento e organização.
Exemplo: um quadro com figuras mostrando a ordem da manhã – acordar, escovar os dentes, tomar café, colocar a mochila.
2. Jogos e brincadeiras que estimulam planejamento
Jogos de tabuleiro simples, como “Jogo da Memória”, “UNO” ou quebra-cabeças, podem fortalecer a memória de trabalho, a flexibilidade cognitiva e o controle de impulsos. Além disso, trazem momentos de diversão compartilhada.
3. Listas e checklists
Ensinar a usar listas ajuda a estruturar etapas. Pode ser algo simples como: “arrumar a mochila com caderno, estojo e garrafa de água”. Visualizar os itens facilita a execução e reduz esquecimentos.
4. Treino de solução de problemas cotidianos
Propor desafios pequenos, como organizar os brinquedos de diferentes formas ou escolher qual caminho seguir em uma caminhada, ajuda a desenvolver flexibilidade cognitiva.
5. Incentivo à autonomia gradual
Permitir que a criança participe de tarefas como preparar um lanche ou ajudar na arrumação da casa desenvolve planejamento e organização. O importante é dividir a atividade em passos curtos, de forma clara.
6. Estratégias de autorregulação
Ensinar a criança a identificar quando está frustrada e a usar recursos simples (respirar fundo, pedir ajuda, se retirar para um espaço tranquilo) ajuda a fortalecer o controle inibitório.
Funções executivas na adolescência e vida adulta
Embora muitos textos foquem apenas na infância, é fundamental entender que as funções executivas continuam a impactar a vida de adolescentes e adultos autistas.
- Na escola: organizar materiais, cumprir prazos e lidar com mudanças de horários.
- No trabalho: planejar tarefas, seguir instruções múltiplas, administrar tempo.
- Na vida social: interpretar situações, lidar com imprevistos e se adaptar a contextos diferentes.
Esse processo também se relaciona com os desafios da puberdade. Para saber mais, recomendamos a leitura de neurodivergência e adolescência.
Trabalhar essas habilidades desde cedo prepara o autista para maior independência, mas nunca é tarde para começar. Mesmo adultos podem se beneficiar de estratégias práticas de organização e planejamento.
Adaptações para diferentes perfis de autistas
Cada autista tem características próprias. Assim, as estratégias precisam ser adaptadas:
- Autistas não verbais: uso de comunicação alternativa, como figuras, aplicativos e rotinas visuais.
Para autistas não verbais, a comunicação alternativa pode ser essencial para estruturar tarefas e reduzir frustrações.
- Autistas com alta sensibilidade sensorial: reduzir estímulos no ambiente para facilitar concentração.
- Autistas adolescentes com interesses restritos: aproveitar os interesses como motivadores para trabalhar funções executivas.
Personalizar o apoio é a chave para resultados mais efetivos.
Erros comuns ao tentar estimular funções executivas em casa
Muitos pais e familiares desejam ajudar, mas acabam cometendo erros que podem dificultar o processo:
- Exigir demais de uma só vez: sobrecarregar com múltiplas tarefas pode gerar frustração.
- Ignorar sinais de sobrecarga sensorial: sem ajustar o ambiente, a criança pode perder o foco.
- Não celebrar pequenas conquistas: cada avanço, por menor que pareça, é importante.
- Falta de consistência: alternar entre regras diferentes pode confundir a criança.
Usar quadros de rotina e recursos práticos é uma das formas de apoiar o planejamento. Para pais que querem dar um passo a mais, sugerimos o conteúdo sobre como organizar seu filho com TEA em casa.
Dicas para famílias: como manter a constância
- Estabeleça horários previsíveis para atividades-chave.
- Use recursos visuais sempre que possível.
- Divida tarefas em etapas simples e progressivas.
- Reforce positivamente cada avanço.
- Tenha paciência: progresso em funções executivas pode ser gradual.
Acima de tudo, lembre-se de que o processo precisa ser acolhedor. A relação entre pais e filhos é o maior recurso de desenvolvimento.
Perguntas frequentes sobre funções executivas no autismo
1. Toda pessoa autista terá dificuldades em funções executivas?
Não necessariamente. Embora seja comum, a intensidade das dificuldades varia de acordo com o perfil do autista.
2. Posso trabalhar funções executivas em casa sem apoio profissional?
Sim, muitas estratégias podem ser aplicadas em casa. No entanto, apoio profissional pode trazer recursos complementares.
3. Funções executivas podem melhorar com o tempo?
Sim, especialmente quando estimuladas de forma consistente e adaptada às necessidades da pessoa.
4. Como saber se meu filho está evoluindo?
Observe se ele consegue executar tarefas com mais autonomia, lidar melhor com mudanças e manter o foco por mais tempo.
Conclusão
As funções executivas no autismo são fundamentais para que a pessoa consiga planejar, organizar, adaptar-se a situações novas e conquistar maior autonomia. Embora os desafios existam, há muitas formas práticas de estimular essas habilidades em casa.
Funções executivas caminham junto com a autonomia nas atividades de vida diária (ABVDs) e podem ser reforçadas por meio de atividades práticas para crianças com TEA.
Pais e familiares têm papel essencial nesse processo. Com rotinas estruturadas, atividades divertidas e apoio emocional, é possível criar um ambiente que favorece o desenvolvimento.
Trabalhar funções executivas em casa é investir em qualidade de vida, em independência e em um futuro mais inclusivo e cheio de possibilidades para a pessoa autista.