A frustração nas crianças autistas é uma emoção inevitável, mas para crianças dentro do espectro autista ela pode assumir proporções muito intensas. Situações simples, como um brinquedo que não funciona ou uma mudança inesperada na rotina, podem gerar crises de choro, resistência e até meltdowns.
No entanto, a forma como os pais respondem a esses momentos é determinante: acolher a frustração sem invalidar os sentimentos da criança fortalece sua segurança emocional e ensina habilidades de autorregulação.
Neste artigo, vamos explorar porque, a frustração é tão desafiadora no TEA, como diferenciar frustração de birra, e quais estratégias práticas ajudam a reduzir a intensidade desses episódios, sempre com foco em validar sentimentos e construir tolerância.
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Por que a frustração é tão intensa em crianças autistas?
A frustração acontece quando a expectativa não corresponde à realidade. Para qualquer criança, isso é difícil de lidar, mas no autismo há fatores que intensificam essa reação:
Rigidez cognitiva: muitas crianças autistas têm dificuldade em lidar com imprevistos. Uma mudança mínima pode causar enorme desconforto.
Sensibilidade sensorial: estímulos como barulhos, texturas ou luzes podem sobrecarregar o sistema nervoso, reduzindo a capacidade de lidar com frustrações.
Vocabulário emocional limitado: nem sempre a criança consegue nomear o que sente. Isso amplia a tensão, já que ela não encontra palavras para expressar sua dor.
Esse conjunto faz com que episódios de frustração possam se transformar em crises intensas, confundindo pais e cuidadores que, por vezes, interpretam como birra.
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Frustração não é birra: entenda a diferença
Uma das maiores dificuldades das famílias é separar frustração genuína de birra. A diferença é fundamental:
Birra: é intencional, busca chamar atenção ou obter algo.
Frustração: é real, fruto de incapacidade de lidar com uma emoção ou situação inesperada.
No TEA, quase sempre estamos lidando com frustração, não com manipulação. Rotular incorretamente como “manha” pode invalidar sentimentos legítimos da criança e enfraquecer o vínculo de confiança.
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Estratégias práticas para lidar com a frustração nas crianças autistas
1. Valide antes de corrigir
Antes de qualquer tentativa de ensinar comportamento, valide a emoção:
“Eu entendo que você está frustrado porque o brinquedo quebrou.”
“Você queria continuar jogando e ficou bravo porque acabou.”
Esse reconhecimento abre espaço para a criança se sentir compreendida e reduz a intensidade da crise.
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2. Use recursos visuais de apoio
Muitas crianças autistas compreendem melhor o que veem do que o que ouvem. Por isso, estratégias como rotinas visuais ou cartões de emoções ajudam a antecipar situações e a nomear sentimentos. Isso diminui a surpresa e torna a frustração mais administrável.
Aqui você pode se inspirar em nossas reflexões sobre histórias sociais no TEA, que mostram de forma concreta como lidar com situações cotidianas.
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3. Crie oportunidades para treinar tolerância à frustração
Assim como qualquer habilidade, aprender a lidar com frustrações exige treino. Algumas estratégias incluem:
- Jogos em que nem sempre a criança vence.
- Atividades com pequenas esperas, ensinando a lidar com o tempo.
- Propor desafios levemente acima da zona de conforto.
- Essas experiências controladas ensinam que sentir frustração é normal e passageiro.
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4. Modele a autorregulação
As crianças aprendem observando. Quando os pais demonstram como lidam com a própria frustração, respirando fundo, pedindo tempo, falando sobre o que sentem, transmitem, na prática, ferramentas valiosas de enfrentamento.
Essa prática se conecta diretamente com a importância da autorregulação emocional no autismo, que ajuda a prevenir crises mais intensas.
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5. Ofereça um espaço de calma
Ter um local seguro, como um “cantinho da calma”, permite que a criança se retire quando a frustração estiver no auge. Esse espaço deve ter objetos que tragam conforto, como almofadas, brinquedos sensoriais ou fones abafadores de som.
Esse recurso funciona melhor quando não é usado como castigo, mas como oportunidade de autorregulação.
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Quando buscar apoio profissional?
Em alguns casos, a frustração pode estar tão presente e intensa que compromete o bem-estar da criança e da família. Se as crises forem frequentes e difíceis de manejar, é importante buscar apoio com psicólogos, terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos especializados em TEA.
No PRÓXIMO DEGRAU trabalhamos com programas completos para auxiliar famílias e crianças a desenvolverem não apenas a comunicação, mas também a autorregulação emocional, sempre respeitando os sentimentos de cada indivíduo.
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A frustração é inevitável, mas não precisa ser motivo de dor constante. Quando acolhemos e validamos os sentimentos da criança, mostramos que não há nada de errado em sentir, e que existem caminhos para se acalmar e seguir em frente.
Dessa forma, em vez de sufocar ou negar emoções, ajudamos a criança autista a desenvolver confiança e tolerância, habilidades essenciais para a vida. O segredo está em reconhecer a frustração não como inimiga, mas como oportunidade de crescimento.